
CAPÍTULO I - Lágrimas e Chuva
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O sol da manhã brilha forte e aos poucos os seus raios banham a pele delicada de Paula, que adormecera recostada no vidro do ônibus, ao abrir os olhos, a jovem, de pronto, reconhece o lugar e um leve sorriso brilha em seu rosto. Ela fecha os olhos e as lembranças afloram em sua mente enquanto uma lágrima escapa pelo canto dos olhos e ela lembra... lembra dos momentos , dos dias felizes da infância ,dos olhos suaves e doces de sua mãe, do sorriso seguro e largo do pai e do grande amor que recebia de ambos, naqueles bons tempos de riqueza e abastança.
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No outro lado da cidade, Herculano está na varanda, seus olhos fitos no horizonte, observando o sol nascer, como tem feito nos últimos meses. O cinzeiro lotado, e o cigarro aceso indicam que a noite fora bem longa e que o homem que sempre fora tão forte e imponente, está mais frágil do que nunca. O vento gelado da manhã que dança em seus cabelos, não é suficiente para abrandar o calor dos primeiros raios de sol , ele olha ao longe, mas seus pensamentos vão muito além do que seus olhos alcançam. De repente, ele sente os braços frágeis de sua mulher abraçando-o com delicadeza.
-Bom dia, meu amor! Outra noite acordado?
-Sim , Piedade, outra noite em que meu corpo não se entrega ao sono e a realidade me atormenta! – exclama Herculano, apertando os braços de Piedade ,como se fossem salvá-los de um perigo iminente.
-Já pedi tanto que você volte a consultar com Dr Varela. Os meses em que esteve em terapia com ele você melhorou muito.
-Sim, eu sei, mas existem lembranças que não vão embora nunca, pesadelos que não acabam com o despertar, feridas que não tem cura...
-Não pense assim meu querido, Você é um homem bom, forte, um grande guerreiro, que soube conquistar dignamente tudo o que desejou, está na hora de ser grato por isto, reconhecer o grande Homem que você é!
Herculano vira-se e beija apaixonadamente a companheira que está ao seu lado já há tantos anos.
- Preciso agradecer por ti meu amor, e todo apoio e a dedicação que sempre me dá.
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Paula desce do ônibus e caminha devagar até a entrada imponente do Cemitério Municipal. “Este é um lugar onde se encontra a paz”, ela lê em letras garrafais gravadas no portal. Seus passos se tornam mais lentos e pesados. O peso em suas costas parece imenso e a dor em seu coração dilacera-lhe a alma. São quinze anos desde a primeira e última vez em que estivera neste local, mas o caminho continua fresco em sua memória, e quando finalmente chega ao seu destino, ela observa a lápide de mármore italiano, minuciosamente esculpido e suas pernas tremem e a jovem cai de joelhos enquanto o pranto, guardado, trancado por tanto tempo surge forte, arrebatador e intenso. As lágrimas lavam seu rosto e a dor rasga sua carne e ela grita. E chora. Chora até lhe faltar forças. Até lhe faltar o ar. Até quase lhe faltar vida. Então, prostrada sobre a sepultura, ela adormece. E um trovão ecoa no ar, forte e ensurdecedor. Nuvens negras invadem os céus, vindo do nada, transformando o dia em noite, e a chuva cai impiedosa! Todos que estavam no cemitério fogem, menos Paula, que continua desfalecida... a água lava-lhe o corpo, encharca-lhe a carne e inunda sua alma. De repente, ela abre seus olhos e os relâmpagos e trovões a despertam para a realidade. Lentamente ela se levanta e fita a lápide à sua frente , como se estivesse desafiando-a, e a chuva continua, copiosa e torrencial, e então ela grita:
-Que esta chuva caia! Forte , derramando em mim toda a sua fúria e dor do meu pranto!Que caia! Que leve embora tudo o que me torna frágil! E que o poder dos trovões e tempestades me transformem numa nova mulher, mais forte e impiedosa e que me traga forças para destruir meus inimigos e executar minha vingança!
O vento então se acalma e os trovões se calam, somente a chuva continua intensa. Paula então se vira e com passos firmes e decididos, vai embora.